UMA NOITE NA VIDA DE VICTOR FERREZ

Conto por, Gustavo Rubim.

VICTOR FERREZ não aparentava seus 20 e poucos anos, ao olhá-lo, julgava-se possuir alguns bons anos a mais, para olhos desatentos, não tão fixos aos detalhes, davam-no 30, quem sabe. Talvez pela barba grossa e um certo aspecto de abandono. No entanto, o rapaz tinha certa beleza, como os livros, que quando velhos, empoeirados, e, em estado avançado de degradação pelas traças, viram para as casas belas peças de decoração.


Vivia num cubículo na rua João Alves. O movimento constante da via, contrastava com seu estado de espírito pacífico, com ares de timidez e, até mesmo, tonto. Decidiu pelo departamento para estar próximo do trabalho, um escritório de advocacia na rua Pedro Rocha, a poucos metros dali. Pela manhã, tinha uma vista agradável da Serra Extrema. Ainda não era advogado, estava no último ano do curso, se preparando para OAB. Não tinha paixão pelo Direito, escolheu o curso simplesmente por ser um homem prático, esse "Pode, não Pode", o fascinava, a busca pelas brechas da Lei. Quando criança, sempre afrontava a mãe, que impunha a casa regras contraditórias e, por vezes, desiguais entre os filhos. Por ser homem, muitas vezes as regras o favoreciam, nesses casos, não contestava, era jovem demais para compreender sua hipocrisia e outros desvios de caráter, pensava, "há alguém que conteste uma Lei que o beneficia em detrimento do outro?", "uma Lei sempre será injusta para uma das partes?". Sofria de perguntas sem respostas.


No escritório, o pagavam mal, mal para uma quase-advogado, que fazia praticamente o trabalho de um. Tinha que se virar com 1.000 reais, à época, pouco mais de um salário mínimo, 300 iam para o aluguel e afins, outros 300 para alimentação, no fim tinha que se virar com 400 reais que lhe sobravam. Por sorte era bolsista. Gastava-os, o dinheiro que lhe restava, com livros, os que não podia comprar ou as leituras mais pontuais, pegava na biblioteca da Universidade, e convivia com as multas de atraso-de-devolução. Se permitia uma saída em intervalos de 14 dias, para qualquer boteco, ainda que frequentasse sempre os mesmos.


Foi numas dessas noites, fazia frio, que voltava para casa, encolhendo-se dentro do casaco, com as mãos metidas nos bolsos, que sentiu-se cansado e resolveu sentar-se num dos bancos da praça Júlio Carneiro. Observava como a luz dos postes públicos despejavam um amarelo cálido no asfalto escuro, quando viu sair da igreja Nossa Sra. de Lourdes, uma jovem franzina, mas com certa definição do corpo, seios arredondados, pele branca e lábios rosados, não pelo frio, mas um rosado natural, que se acentuava com a luz, ao atravessar a rua e subir na calçada da praça.


Esperou que a garota se distanciasse do grupo que vinha metida, até que ficaram apenas ela e uma amiga. Por sorte, reconheceu no rosto da amiga, uma ex-colega de ensino médio. Aproximou-se de modo desajeitado e saudou, RAQUEL!, a garota, surpresa, recebeu o cumprimento do rapaz com satisfação. Perguntou-lhe como passou desde então, nunca mais o vira, nem recebeu notícias. O rapaz respondeu com brevidade, mais interessado que lhe apresentasse a amiga. "Essa é ANNA, com dois enes, não sei se já a conhece? Somos meio que primas distantes". Não, nunca a havia visto, e, assim de pertinho, parecia ainda mais bela. As luzes agora despejavam todo o brilho naquele rosto delicado, nariz fino e olhos compridos, profundamente negros.


ANNA lhe sorria amavelmente, rompia sua antipatia natural perto dela, se descompunha de formalidades, observava-se nos movimentos do rapaz até certa ousadia. O diálogo tomou um rumo bilateral, VICTOR e ANNA falavam praticamente sozinhos. A amiga, desconectada, já bocejava e demonstrava-se desinteressada da conversa. VICTOR pensava em uma maneira de estender mais e mais aquele momento. Lembrou-se que tinha ainda cerca de 70 reais na carteira, as convidou para sentarem em um bar da esquina, a amiga recusou, estava indisposta, precisava ir. ANNA ficou.


"Não acha que está muito frio para sentarmos aqui", ouviu o rapaz da boca da garota. Já abusando de sua ousadia, que gastara por inteira nessa noite, a convidou para ir a sua casa, que estava a alguns metros dali. Foram caminhando em ziguezague pela rua vazia, ANNA tentava sem sucesso chutar algumas britas soltas no asfalto. Estava de sapatos baixos e se equilibrava bem.


Chegaram a casa. VICTOR sentiu no rosto o vapor quente da casa, minimamente organizada. Pediu a ANNA que entrasse, se não desejava algo para beber, ÁGUA!, disse em uma palavra. Serviu-a morna em um copo-americano, estendendo-lhe o braço comprido. VICTOR sugeriu que vissem um filme de escolha dela, que faria pipoca doce, enquanto pensava no que iam assistir. ANNA escolheu qualquer coisa. VICTOR voltou com uma vasilha de pipocas e se juntou a garota no sofá. Ela agarrou algumas na palma da mão e as comeu separadamente, com um pássaro que bica o alpiste. Disse que tinha frio, jogando as pernas no colo do rapaz, antes tirou cuidadosamente a sapatilha. O rapaz a acariciou os pés massageando. Dos pés passou aos joelhos sem cicatrizes, "não tivera infância essa garota?", perguntava-se. De súbito, já lhe apalpava as cochas, ANNA permanecia imóvel, com os olhos fixos no filme.


Depois de um tempo enfiou a mão por debaixo do short-jeans e ergueu, com o indicador, o elástico da calcinha de tecido de algodão. Com os dedos, sentiu o líquido na borda, espalhou-o pela região pélvica. A garota abria as pernas para facilitar os movimentos circulares do rapaz, isso sem olhá-lo nos olhos. VICTOR interrompe bruscamente o que fazia ao ouvir os primeiros gemidos suaves da garota. ANNA retoma a posição natural das pernas, com os pés presos ao piso gelado. Diz que é tarde, que a mãe seguramente já dá por sua falta. VICTOR aceita a desculpa passivamente. Se oferece para levá-la em casa, a garota recusa. Se despedem sem beijos, nem abraços. VICTOR abandona a pipoca na mesa de centro. Apaga as luzes. E dorme.

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FIM


Autor: Gustavo Rubim. ¹ contribua com o Foro, envie seu escrito para nosso e-mail, forodebrasilandia@gmail.com.

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