TEMPOS DE ESCOLA

Conto por, Gustavo Rubim.



NÃO ESCREVO PORQUE NÃO VIVO, vivo é diferente de viver, um é presente do indicativo o outro é futuro, e adiantar as coisas sempre é um modo de enganar a nós mesmos, por isso que se diz, é preciso viver, nunca é preciso vivo, até porque se necessita “estar”...”estar vivo”; e “estar” é transitivo [ou será transitório], não permanente, ou seja, dizer que se é vivo, trata-se de uma enorme mentira, assim como dizer que se é feliz ou que o amor existe - bem, isso é outra discussão, ainda mais profunda. Enfim, sou eu um analfabeto, não sei dessas regras, dessas nomenclaturas que Obela, Eustácio e Eva, rabiscavam no quadro quando ainda era uma criança desesperada, sem me sentir parte de canto algum, e por tão indefinido espírito, escolhia a carteira do meio, onde era possível olhar tanto para frente, quanto para trás. Bem, não os culpo por meu conhecimento limitado, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, o que me passaram foi o suficiente para me comunicar, ler e escrever-mal, e saber de que autor pertence a frase passada. As minhas preocupações não se baseavam em conhecer a língua portuguesa, tampouco nas meninas que passeavam no pátio da Cyro Góes, se bem que aquelas mentes vazias que rebolam, me causava maior atração, que verbo-sujeito-e-predicado. E por esse pensamento, não sabia dizer se eu era mais machista ou mais egocêntrico, então me definia por idiota, mas idiota não podia, porque idiota é aquele que se afasta do debate político, e isso não era, então me acabo por ignorante, não em sentido daquele que ignora o que está ao alcance, porém o que desconhece, o que dar-se conta de seu desconhecimento.


Um dia, daqueles colegiais, Obela, rigorosa, com quem se aprendia ou aprendia, a já famosa entre as conversas de corredores, a quem ninguém ousava desrespeitar, nos enviou a Biblioteca, Darlice folheava os livros, como se rezasse ou orasse [veja aqui, o acúmulo de minha ignorância, não sei eu a diferença daquele que reza ou daquele que ora, sei que se tratava de um ato Divino, religioso]. Darlice não se encontrava mais solitária apenas porque tinha a companhia dos livros e de um ou outro que matava-aula. Falei a Ela que necessitava escolher um livro para um trabalho, tratava-se de ler um livro e fazer um resumo, ler um livro…isso já me soava cansativo, que se fosse suava dava no mesmo, pois com “o” era som e com “u’, transpiração, enfim, as duas palavras me serviam igualmente.


Busquei pelo que continha o menor número de páginas, mas tudo parecia largo e cheio de palavras, julguei que não seria capaz de ler um livro, demandava o mesmo esforço de mover a Serra Extrema, até que tocasse uma ponta a outra. Por fim, elegi Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, justamente porque entre o montão de palavras havia uma ou outra figura no intervalo entre os capítulos.


_ Vou levar esse - disse interrompendo a conversa de Darlice com Clarissa, sim, enquanto escolhia o livro Ela chegou e se debruçou sobre a mesa, com os cotovelos apoiados à borda, que dava mais volume aos seios jovens e consistentes, a desejava desde o primeiro ano, era da turma B, quis o destino que saíssemos de turmas separadas, insisti com mamãe, no início do ano, que me trocasse, que nessa turma havia gente que não gostava, que os garotos me batiam por nada, que no último ano chegaram a encher minha mochila de brita - de fato não mentia -, mas mãe não se convenceu, “Paulo, você não pode fugir deles, é necessário que você encare os problemas de frente”, e foi aí que passei a odiar esses discursos positivistas.


_ Muito bem, Paulo, me alegro que se interesse pelos livros - disse Darlice dispondo de toda sua ternura.


_ Éeeee, fui obrigado, trabalho de Obela.


Clarissa riu. E Darlice também. Ou se eu dominasse essa língua de portugueses diria, Clarissa e Darlice sorriram.


_ Tenho um mês para ler isso e entregar uma resenha.


_ Me parece pouco tempo - abriu a boca Clarissa - raramente abria a boca, por um tempo cheguei a pensar que nada se passava na cabeça dela, que era oca como uma cabaça, que borboletas passeavam lá dentro.


Darlice me estendeu a ficha, que preenchi com minha letra trêmula, junto a data, “você tem um mês, é tempo suficiente” - disse Darlice ao receber a ficha com meu rabisco.


Desci as escadas e chutei de volta duas britas que subiam a calçada, Clarissa me seguia, até que puxou minha camisa pela manga com suas unhas postiças. No banco do portão da quadra, de costa para a saída, Ela me confessou que Obela passara a mesma tarefa para a turma B, e que não dispunha de tempo e que, mesmo que dispusesse, seria incapaz de realizá-la, precisava de nota, os 12,5 do bimestre eram impossíveis sem essa resenha.


_ Sei que é inteligente, Paulinho - disse arranhando minha barriga com as unhas - faz esse favor para mim, te dou um beijo na boca.


Martelava com meus pensamentos, custaria para fazer minha própria resenha, e fora que Clarissa tinha namorado, e era dos babacas que vinham buscar as meninas do Terceirão de carro na porta da Escola. Matutei bem e respondi:


_ Pela dificuldade do trabalho e pelo risco, já que tem namorado, um beijo é pouco - pausa para calcular -, proponho que a gente fique por pelo menos uma semana, sala 11, que está sempre fazia, no intervalo do recreio, - dizia isso consumido por tensão e tesão, e descobri os extremos que podem levar um êne.


_ Beleza! - me beijou na bochecha e saiu.


Não imaginei que seria tão fácil convencê-la, e nem senti culpa pelo namorado, eram babacas, hétero-top, pinto-pequeno, não capazes de se relacionar com mulheres de sua idade, aproveitavam da INOCÊNCIA burra, daquela puberdade carente de descobrimento, e já que seres como eu eram incapazes de comer alguém, eles comem, é como diz o ditado, “se você não comer outro come”, também sei o autor, Dudu do 304, meu vizinho dos tempos de Faculdade.


Peguei outro livro na Biblioteca, Dom Casmurro, o primeiro que me apareceu. Por duas semanas me dediquei inteiramente à leitura, primeiro o de Clarissa, claro. “Dom Casmurro, Machado de Assis, Capítulo Um”, o desgraçado escrevia com parágrafos curtos, mas tudo era confuso, palavras difíceis, lia com o dicionário do lado e as notas de rodapé pouco ajudavam. Acabei num domingo, caprichei na resenha, a capa do trabalho era encargo dela. Já a minha resenha fiz com o cu, mal li o livro, pulava as partes e busquei umas outras resenhas na internet e compus a minha dessa forma.


Na segunda estava empolgado para ir à Escola. Cheguei cedo e não vi Clarissa no corredor, a encontraria no recreio - seguro. Assim, fiz, entreguei a folha sem amassados, Ela olhou e me deu um sorrisinho, “que rápido”. Combinamos a semana de beijos depois das notas, não me opus, ainda que estava ansioso e com medo dela dá para trás.


Não tardou para Obela anunciar as notas, tive um medíocre seis e meio, Clarissa foi melhor, me contou depois, “nove”, [pensei que seria um dez, me dediquei como nunca nessa resenha]. Era engraçado o tom com que contara, parecia que o “nove” era fruto de seu próprio esforço ou seria a felicidade de escapar de uma recuperação. Me enrolou mais alguns dias, disse que o namorado ficava no pé dela e que à vinha buscar todos os dias, não dei a mínima, combinado era combinado.

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HOJE, SEM FALTA, EU DISSE. Ela não contestou. Também se contestasse não faria nada, o idota foi eu por acreditar. Ainda assim mal prestei atenção nas aulas que se sucederam até o toque do recreio, e arrumei uma desculpa para me livrar de Julinho no intervalo, acabei a tarefa e sai cinco minutinhos antes. Logo vi Clarissa descer a rampa dentro do jeans-apertado, inevitavelmente fiquei de pau duro toda a manhã. Ela disse que no recreio não, “arriscado demais, melhor deixar para o último horário”. Por sorte era aula de Educação Física, os deuses estavam comigo naquele dia, pensei. Depois do recreio o horário foi uma eternidade, estava claramente tenso dentro de meu silêncio. Fomos para a quadra, não joguei futebol para não suar, Ela surgiu na arquibancada da quadra e fomos para sala 11, Ela bem na minha frente. Meus atos eram automáticos, livre de qualquer sentido humano. Entrei na sala e Ela me puxou para detrás da porta, Me beijou como se minha boca fosse um bife de almoço, segurava-me pela nuca. Eu não reagia, era um boneco, dentro de instantes Ela parou, “pronto”, bateu a porta e saiu. Continuei parado, com um gosto de borracha na boca. Sem pensar em nada, tentei ficar contente, mas não estava.


No outro dia, Clarissa me contou desesperada:


_ Renan descobriu tudo!


_ Quem é Renan? Tudo o quê?


_ Meu namorado, não se faça de tonto.


Eu estava petrificado, sentia que meus pés não tocavam o chão, a notícia já se espalhara pelos corredores da Escola, eu era um homem morto, diziam. Nesse momento em que se apresenta o desespero é que se sente vivo, o coração trabalha como nunca, tudo queima, ainda que frio, meu corpo inteiro coçava, sabia que não ia morrer, apenas uma surra, mas dessa surra o que me assustava não era a dor física, mas a humilhação, a minha covardia, temia chorar, fugir como um rato, implorar para não me espancarem, Clarissa disse que eu tentara agarrá-la à força, os problemas se multiplicavam, Logo me chamariam a Diretoria, “Nunca esperaríamos isso de você Paulo, tão bom menino”. Estava acabado, não ouvia, não falava, pensei em fugir pelo muro dos fundos, mas seria pior tardar o pior, seria me torturar mais ainda, esperava que me chamassem. Os pais de Clarissa, a imagem da mãe indignada, o pai desejava me matar, a Diretora tentava alcalmá-los, era caso para expulção certamente. Não disse uma palavra para me defender, meu silêncio acusava a mim mesmo. Minha mãe, minha mãe, coitada, seu olhar de vergonha, sua humilhação era minha humilhação, senti vontade de chorar ao vê-la naquela cadeira na sala. Pedi para que fosse embora, “você vai comigo!”, implorei para que não, tinha que cumprir meu destino,


_ Em casa a gente conversa! - pela primeira vez essa frase não me pareceu ameaçadora.


Peguei minha mochila, subi a rampa deslizando a mão sobre o corrimão, enquanto uma multidão se formava lá fora. Era o meu destino, tinha que encarar a situação de frente, me senti vivo. Renan me esperava.

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FIM.


Autor:Gustavo Rubim.


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