O HOMEM QUE NA REALIDADE ERA O DIABO

Atualizado: 21 de jul.

Conto por, Gustavo Rubim.

“Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”.

— Fiódor Dostoiévski



I

DOIS SENHORES DISCUTIAM FERVOROSAMENTE, na mesa de um bar, a existência de Deus. Essa pequena bodega, localizada nas extremidades do bairro Porto, já nem pode ser revista pelos concidadãos, pois descreve-se uma Brasilândia antiga, viva apenas na memória dos que passaram ou viveram por ali naquele tempo, não tão distante, mas facilmente esquecido. Dava-se, naquele tempo, com mais frequência, a subdivisão desse pedaço do bairro Porto, a alcunha de Inferninho. Essa região sofria o preconceito que dar-se hoje a região que chamam Baixada, em referência às casas mais próximas às margens do rio Paracatu.


O nome Inferninho não exige mais explicações, uma explicação seria um insulto a capacidade intelectual do leitor, por isso limitamo-nos a descrição deste local. Não mais que ruas esburacadas, uma terra vermelha que fabricava uma poeira igualmente vermelha, que atormentavam as donas-de-casa, que nos dias de ventania por sorte ou azar quase nunca soprava o vento ali essas senhoras emaranhavam um trapo entre o vácuo da porta e o piso. A porta sempre apoiada por um peso de concreto, que poderia ser também um litro com feijões dentro. As senhoras mais sofisticadas e cuidadosas, utilizavam de outros objetos; um sapo de cerâmica, pintado em cores vivas. Nos fins de tarde, as senhoras descansavam as pernas e trabalhavam a língua nas portas das casas, debaixo das mangueiras ou qualquer sombra nas calçadas não havia calçada, já que a rua se diferencia apenas pelo espaço em que não havia casas, refere-se aqui como calçada ao espaço entre esse vão das ruas e as portas dos barracos. Pelas vielas corriam crianças apenas com o sexo tapado, tão sujas quanto as ruas, a conversa das senhoras, quando desviavam das vidas alheias, era para chamar a atenção para as travessuras das crianças. O espírito materno dessas senhoras, faziam-nas imaginar sempre os filhos das outras senhoras piores que os seus. A noite chegava, as senhoras deixavam a porta das casas pela porta das igrejas e os senhores o trabalho pelos botecos, que começavam a encher as cadeiras e as mesas de sinuca. Era em um desses botecos que a discussão se dava, FREDERICO ALFONSINO PAES, pedreiro de 57 anos, bradava com seu compadre MALELEO CUNHA,


— Deus não existe, compadre!, e não há o que se fazer. — a voz saía-lhe triste e sincera.


— FONSINO! modo como dizia o nome do compadre por não pronunciar bem as letras L, R e S] o senhor é um homem bom, labutador, não pode dizer essas coisas, um homem sem Deus não é nada, não se pode ser bom sem Deus. — exclamava o senhor olhando-o com olhos de desespero, como os de quem vê um amigo enforcar-se nas cordas da descrença.


— Deixa-me triste, compadre, deixa-me triste, — lamentava o homem girando a cabeça de um lado para o outro — o que muda em mim se creio em Deus ou não, o que importa são minhas atitudes, se faço o bem ou não, o resto nada mais importa. O senhor conhece-me bem, como um irmão conhece o outro e sabe de suas aflições, sou um bom homem, nunca matei um pássaro, nas obras desviava as botinas pesadas dos formigueiros, é pecado matar uma formiga?, a formiga também não é uma criação de Deus?, nunca me deram as respostas que procuro. Os religiosos que encontro só me dão a religiosidade, nunca Deus em si, o que dizem são interpretações deles mesmos de um Deus que sempre será pessoal. Já conheci e ouvi relatos de padres e pastores, que são seres mais abjetos que os bandidos das prisões mais sujas. Se Deus existisse e quisesse que soubéssemos de sua existência aparecia diante de nossos olhos, compadre! — cortou a fala cansado o homem.


— Não é questão disso, FONSINO, Deus é simples, a gente tem que crer, que seria da gente sem ele?. É Deus que acorda a gente, que dá força pro trabalho. Deus é um ser invisível que vive dentro de cada um. O que você está buscando é um Deus de cabelo comprido, olho azuis e corpo alto, igual nas imagens, esse nunca há de existir e falar com a gente, Deus usa e fala pelos outros. — confessou humildemente MALELEO.


— Compadre, se Deus usa a gente, como bem disse, não é Deus, mas a gente. Deus não pode ser a gente, porque gente é o pior que há, se disse pra mim que Deus é o que há de bom na gente, pode ser, mas ainda assim seria insuficiente. O mundo é um lugar ruim, onde impera o mal e a injustiça, isso não pode ser criação de Deus.


MALELEO começava a dar razão para seu compadre, em toda sua vida pouco encontrou momentos em que realmente fora feliz. Sempre praticou o bem, com seus vícios é claro; uma pinguinha, o cigarro, brigas com a esposa. Nada mais grave, nada que justificasse a sua condição de pobre, mais do que pobre, a condição de infelicidade. Merecia ser feliz, afinal, quanta gente ruim se dando bem, engordando os porcos e as vacas em grandes extensões de terra.


— FONSINO! — disse o senhor cortando o silêncio que existia entre os dois — pede mais uma que essas suas ideias já estão me perturbando.


II

Nenhuma conclusão saiu dessa conversa atravessada, pois tratava-se dessas conversas de natureza desconhecida, que o ser humano costuma evitar por não suportar o próprio questionamento de si e das coisas ao seu redor, pois alimenta-se do absolutismo. Apenas formou-se uma enorme pulga atrás da orelha de MALELEO. De fato, FREDERICO ALFONSINO PAES sempre foi motivo de comentários dessas senhoras que o apelidaram de Diabo-do-Inferninho. ALFONSINO, por um acaso, vivia em uma das casinhas mais distantes, o que dava margem para as senhoras se referirem ao local como “as profundezas do inferno”.


ALFONSINO era um homem forte, ombros largos, que lhe davam a aparência de um urso. Diziam que sua força era do Demo, na obra fazia o trabalho de quatro homens. Era um desses pedreiros brutos, mas detalhistas, o que lhe rendia alguns empreitos. Gostava de crianças, não tinha filhos, sempre que passava pelas ruas vermelhas do bairro, distribuía balas para os “diabinhos”. Também era caridoso, quando necessário ajudava as famílias em situações mais difíceis com cestas e quando não conseguia juntar, dava o que tinha na dispensa. Não era um homem rico, porém sua condição solitária e por não dispor de vícios, o punham em uma situação confortável.


Ainda que descrente de Deus e do Humano, fazia doações para as celebrações da Igreja. Até chegou a ir na Primeira Comunhão de uma das meninas de MALELEO, em consideração ao amigo. As razões da descrença do Homem nunca tem uma explicação clara, podem surgir por acontecimentos dramáticos ou pela súbita consciência do intelecto. No caso, de ALFONSINO corria na língua dessas senhoras, as quais já nos referimos, a lenda de que esse senhor de aparência e força demoníaca, já fora um religioso. Chegou a estudar para ser padre, mas que enlouqueceu, passava noites e noites lendo compulsivamente a bíblia em busca da lógica dos acontecimentos. Ao não encontrar essa lógica, nem um sentido dos acontecimentos, passou a contestar o que lia e a existência de Deus; acabou expulso do seminário. Não se tem notícia da procedência de sua família, dizem que vieram de Santa Fé, no tempo que amarravam cachorro com linguiça, mas não se sabe ao certo. Nunca se casou, nunca fora visto com nenhuma mulher, o que causava ainda mais comentários a seu respeito.


Vivia como se nada disso o afetasse; o que pudesse evitar, claro. Sua casa frequentemente era apedrejada, as crianças, as mesmas que aceitavam as balas, atiravam-lhe pedras quando dava as costas. Com o tempo, correu o boato de que as balas transformavam as crianças em pequenos demoninhos, o que apavorou as mães e gerou ainda mais ódio em relação ao homem.


O Inferninho se expandia, cada vez mais quente e populoso, a miséria crescia junto. ALFONSINO ajudava como podia, boa parte dos barracos erguidos na sua rua tinham as mãos dele, por isso eram os mais planos se assim podemos dizer. Não cobrava nada daquelas pobres senhoras, que lhe ofereciam o almoço como agradecimento. E logo davam-se conta de quem era aquele homem e arrependia-se amargamente por não poderem dizer: Deus ajudou que eu construí a minha casinha; ali tinha o dedo do Diabo.


III

MALELEO preocupava-se com o amigo, era o único que ainda o visitava sem ser para lhe pedir algum tipo de ajuda ou esmola. A violência crescia no bairro, assim como as igrejas, uma em cada esquina; as religiões se multiplicavam e os pastores buscavam a conversão daquele “inferno”: Lucas 19:10 – “Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido”.


O Inferninho se organizava, agora, em tempo de política, eram constantes as reuniões do bairro, aquele apelido os incomodavam profundamente, agora as ruas não eram mais de terra, estavam cobertas por uma camada grossa de piche azul, as crianças já não andavam soltas e quase nuas pelas ruas, o que mantinha na região essa má fama era a presença do Diabo; era preciso matá-lo.


ALFONSINO possuía hábitos diurnos, quase nunca deixava seu casebre, os vizinhos conheciam bem seus hábitos, quando saia era para ir ao bar acompanhado de seu amigo MALELEO. Era o único capaz de percorrer aquelas ruas pouco iluminadas na calada da noite, sabiam que matá-lo era preciso um batalhão, nem um tiro certeiro era capaz de derrubá-lo de pronto. Decidiram que o esperariam em casa, não se embriagava, o que dificultaria a ação, tinha que aguardar o homem cair em um sono profundo e cansado, depois queimar o próprio Diabo.


Não existe pecado maior, para essa gente, que não crer em Deus, esse era o pecado que carregava ALFONSINO. Matá-lo era um bem que faziam, o corte do mau pela raiz. O leitor terá que nos desculpar pelo desfecho quase sem detalhes desse conto, é que o fato tomou tantos desvios e acréscimos durante o tempo, que depois se resumiu a uma descrição simples: viu-se crescer no céu do Inferninho um enorme fogaréu naquela noite, era a casa do Diabo que ardia em chamas,. Nem nos piores incêndios da Serra Extrema, viu-se algo parecido. Durante alguns dias caiu sobre a cidade uma fuligem negra, no sétimo cessou; o “verdadeiro” Inferno ganhará mais um habitante .


FIM.



Autor:Gustavo Rubim.


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