MEGA DA VIRADA

Conto por, Gustavo Rubim.

“É tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível”.

- Anton Tchekhov

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Nunca relatei nada desse caso a ninguém, talvez por vergonha. No entanto, desejo contar, pois qual ser humano nunca teve um ato digno de vergonha?, o qual ocultou até para o amigo mais íntimo. Há coisas que negamos até para nós mesmos, como se fossemos capazes de nos enganar. Deletar da mente episódios da vida. Porém, esses episódios vergonhosos, mais que os episódios felizes, possuem a incrível capacidade de impregnar na mente humana. E, por vezes, esquecidos, podem ressurgir em labaredas, com qualquer fagulha de pensamento, como nesta noite fria, após ler sem propósitos o conto Bilhete Premiado, de Anton Tchekhov, e recordar de um fato quase apagado na memória.


Foi no Fim-de-Ano de 2020, quando ia passar as férias, Natal e Ano Novo, em casa de minha mãe. Ia a Brasilândia de Minas, apenas nesses intervalos de férias. A viagem de ônibus era cara e demorada, saia de Patos de Minas, às 11h, quando o ônibus não atrasa; passava por Presidente Olegário, 20 minutos na rodoviária; dava toda a volta em Ponte Firme; depois mais uma parada de 10 minutos em Alto São Pedro; outra parada de 10 minutos na rodoviária de João Pinheiro; com sorte, antes das 17h está em Brasilândia de Minas, destruído pela viagem. De carona sai mais barato, costumavam cobrar 50 reais, mas tinha que contar com a sorte de encontrar carona. Só paravam para abastecer ou no Café do Amigo.


Estava no último ano de Faculdade, esse vai e vem enfim ia acabar. Peguei férias no serviço, pela primeira vez tive férias. Pude passar um tempo maior com mamãe e visitar quase todos os amigos, até de ter tédio daquela vida que há tempo vivi. Chega um ponto que já se quer voltar para trás. As recordações de uma infância não tão distante me assombravam. Como visitava mamãe com menos frequência do que deveria nesses últimos quatro anos, decidi passar um dezembro inteiro com ela. Não arredava o pé de casa, ficava no sofá, lia algum livro, pois desabituei a ver tevê, e fazia as tarefas, que mamãe me encarregava, com preguiça: basicamente regar as plantas e limpar o quintal.


Costumava fazer anualmente meu jogo na MEGA DA VIRADA, sempre sem nenhuma ambição de ganhar, jogava por jogar, ou por desencargo de consciência. Esse ano o prêmio estava estimado em R$325 milhões. Para mim que recebia e sobrevivia com 840 reais ao mês e acumulava uma divida de 4 mil reais com a Universidade, a grana ia cair bem.


No dia 29 de dezembro, saí de casa pela manhã para fazer o jogo. Era uma terça-feira de sol forte, imaginei que a Lotérica devia estar lotada. Assim foi. Quando cheguei à rua João Alves, já estava pelo meio da manhã, a fila da Lotérica se estendia pela calçada, tapando a entrada dos outros comércios. Entrei para fazer o jogo naquele cantinho, onde a caneta fica presa ao balcão por uma corrente, Brasil!, penso. Segurei a caneta e puxei um jogo, marquei seis números: 7-13-20-27-37-51. Como não tenho a prática de jogar, nem de ler as letras miúdas e o verso das folhas, não sei bem como funciona, vi que para marcar dois números a mais, não custava tanto. Acresci então 25 e 36, na mesma coluna. Eis o motivo de toda essa história de que até hoje me envergonho.


Por sorte não precisava pegar aquela fila gigantesca, havia uma apenas para os jogos, ainda assim ia para fora da Lotérica. Entrei e esperava impaciente jogando o peso do corpo de uma perna para outra. Evitando amassar o jogo e de umedecer o papel com o suor das mãos. Pensava em visitar um amigo depois dali. Depois visualizei mentalmente o que tinha de dinheiro na carteira, uma nota de 20 reais e algumas de dois e cinco reais, o suficiente, um jogo normal sai 6 reais, com os números a mais… deve dar por volta de 12.


Nessa tormenta da mente, aproximava-se minha vez, observava qual guichê sobraria para mim: foi o da atendente bonita e antipática: dei bom dia e passei o bilhete por debaixo do vidro, a garota não respondeu. Esperou um tempo e disse:


- R$140,00, dinheiro ou cartão?

- Como? - foi o que consegui dizer.

- R$140,00, como vai pagar?

- Não vou pagar, como assim R$140,00?!

- Você marcou oito números.

- Sim, mas aqui na placa diz que são R$4,00 cada número a mais.

- Você marcou na mesma coluna, aqui no verso tem as informações - disse a garota virando o verso do bilhete e apontando com o dedo.

- Mas essas letras são miúdas, ninguém lê isso, cancele o jogo, por favor!

- Não cancelamos.

- Como assim não cancelam? - respondi com um meio-sorriso de puro nervosismo.


Enquanto isso a fila crescia atrás de mim e aquela situação me atormentava cada vez mais, pensava como iria pagar aquilo, não tinha dinheiro, a não ser no cartão.


- Como assim não cancelam, não existe isso!

- Já registrei o jogo, não tem como cancelar.

- Não vou pagar, cancele!, por favor.

- Já disse que não tem como, se não pagar vai ser o débito do meu caixa, aí como vamos fazer?, vou chamar o gerente.

- Que chame o gerente então, não existe isso.


Não acreditava em uma palavra dela, além da antipática tinha um riso irônico. “Desgraçada!”, pensava mentalmente. Já trabalhei em supermercado e sei como é o atendimento ao público, eu era da reposição, mas as meninas-do-caixa sempre contavam as histórias dos clientes folgados e as baixas no caixa. Pensei que poderia prejudicar a moça e criava-se um burburinho na fila atrás de mim, ouvi uma senhora dizer ao outro senhor mais atrás, “claro que podem cancelar”.


- Você tinha que ter me avisado o valor antes - disse com tanto pesar que a moça nem contestou - vou pagar no cartão.


Estendi o cartão para a moça e digitei a senha, eu estava fora de mim, pensava nos R$140,00 reais que se iam por pura burrice, era injusto culpar a moça por uma burrice minha, a olhei pelo vidro com menos ódio enquanto devolvia-me o recibo do jogo. Agarrei e disse:


- Agora vou ganhar essa merda!


Ela sorriu, sem ironia.


Deixei os burburinhos da fila para trás, uns de pena outros de “que moleque burro!”, que me envergonhavam ainda mais. Sai ainda meio tonto da Lotérica, o sol forte piorava a situação. Sentia minhas pernas moles, queria sumir dali o mais rápido possível. Não montei na bicicleta por insegurança, arrastei até a esquina e dali dei as primeiras pedaladas. Olhei a grama morta do Campo do Centro, distraído do mundo, minha mente ecoava, “puta que pariu, R$140,00”.


Tentei disfarçar, 140 não era tanto, depois voltava-me a lástima, o desgraçado que era, como posso ser tão burro. Daí recordei outras vezes que fiz idiotices parecidas, que me expus ao ridículo de forma gratuita. Odiei-me. Segui o plano, fui a casa do amigo, chorei no caminho, a fase desgraçada que vivia só piorava, nunca tive sorte com a vida. No caminho até fiz graça, e se realmente ganhasse, que graça teria viver com tanto dinheiro?, desdenhei do prêmio. Dizer que dinheiro não é importante era hipocrisia, mas tanto assim, eu não necessitava. Se ganhasse ia visitar os países que desejo, nunca mais trabalhar, comprar o que quero, nunca mais preocupar com preço das coisas. Gastei muito tempo me iludindo com isso. Porém, por dentro esse fato me machuca até hoje, como pode dar-se conta o leitor, que presenciou minha vergonha até aqui.


Obviamente não ganhei, as dezenas sorteadas foram: 17-20-22-35-41-42. Com dois ganhadores, cada um recebeu R$162 milhões e eu um débito de 140 reais.

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FIM


Autor: Gustavo Rubim.


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