MATRAGA FALA DE AMOR

Atualizado: 31 de jan. de 2021

O pedreiro Matraga abre o coração, que não é duro feito concreto em sol de meio-dia.


 

Lá se vai a vida. Parece que ontem via Dionísia pela primeira vez: vestido de chita remendado com talhas de fazê tapete; laço no cabelo, como em presente de criança...escornada em uns dos bancos da praça Cyro Goés, tapando a propaganda de farmácia, que deixa as costas branca. Coberta com o amarelo febril de luminárias que mal ilumina e o que mostra, quando muito, são os dentes.


E que lindos dentes tinha Dionísia. Tudo era lindo naquelas noites que nos encontrávamos as escondidas de Toin Tatu, homi brabo, que nunca gostou de mim por modo deu ser um pé rapado: Dionísia não há de casar com vagabundo carregador de tijolo.


Os tijolos que eu sonhava levantar eram de minha casinha mais Dionísia. Enquanto isso a esperança morria, como os pingo-de-oro de onde Dionísia pelejava em rancar espinho para quando eu dissesse ou fizesse alguma bobagem, me espetar.


Como amei Dionísia e como amo ela agora. Mas por um tempo amei mais as coisas do mundo do que ela. Amei mais as raparigas, a sinuca do bar, minha Pitú e de agora nada tenho se não tenho “Dió”. Sempre com a barriga na beira do tanque, ô no fogão preparando o cumê. É tudo que não quero prás menina, pra Ketelly, que já maneja pra arrumar namorado e digo sempre para arrumar homi diferente de mim.


Tanto tempo pra gente perceber as burrada que faz nessa vida. E o que estragou num tem como cuncerta. “Dió” deve sentir ódio de mim, ódio não, porque aquilo é alma tão boa que não deseja mal nem para o capiroto. Se eu pudesse cuncerta as coisas. Ah, se eu pudesse volta naqueles tempos de praça Cyro Góes, deixava ela me esperar tudinho: espeta “Dió”, espeta que eu mereço!


Amor é trem que quando perde no coração da gente não acha mais. E quando percebe já foi-se embora no coração do otro, como foi de “Dió”. Já não bebo faz tempo, larguei da Pitú. E agora me aprumo nesse novo serviço de colunista, que pra mim era um tipo de médico que mexia com as costa da gente. E desse modo hoje falo desse trem brabo que é o tal do relacionamento, porque Matraga, também sabe falar dessas coisas, de como num fazê.


 

Notas.


Nota¹: texto escrito em brasilandês (sem tradução).


Nota²: aos que questionam o espaço dado a Matraga, por motivo de ser um semianalfabeto. Vocês estão certos, mas não ligamos para essas opiniões contra o nosso colunista.


Nota³: Matraga é uma personagem ficcional.

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