LARISSA E O DESTINO INEVITÁVEL DAS LARISSAS

Conto por, Gustavo Rubim.


LARISSA NUNCA SE SENTIU PLENAMENTE FELIZ, e por ter esse pensamento, por suposto, creia que isso era possível. Não era feia nem bonita, ainda assim tinha um par de admiradores que mantinham sua autoestima em dia, quanto mais os via arrastar por ela, melhor. Adorava as declarações melosas, após dizer de seus problemas, de se sentir uma garota diferente das outras por seus modos pacatos, mas o que a alegrava mesmo era se dizer feia, ah! como a fazia bem, ouvir do outro lado, ainda que com adjetivos comuns e vulgares, o oposto: linda, bela, inteligente, ES-PE-CIAL. A sua figura comum, o rosto ornado, o corpo de curvas formadas, o pêlo negro e esticado, davam a ela uma falsa e estranha beleza, que causava, instantaneamente, a atração masculina. Tinha já um número considerável de seguidores nas redes sociais, isso é o que mais a empolgava, os quase quatro mil. Cada um era comemorado como a chegada de um parente distante ou de um admirador a mais. Caprichava nas fotos, frases de efeito, principalmente Clarice Lispector, a qual nunca havia lido um livro por completo, lera na verdade Dom Casmurro, o livro dos intelectuais, tinha de saber a resposta pronta, traiu ou não traiu?, “não, Capitu não traiu, Bentinho era um louco”.


Algumas vezes se dizia feministas, ainda que não partilhasse de todos esses princípios. Cumpria o ritual, seguia uma porção de páginas pela causa, compartilhava stories. Porém, achava o ó mulher com roupas vulgares, principalmente os perfis de bunda no Instagram. Era jogar muito baixo para ganhar seguidores. Se orgulhava dos seus quatro mil sem nem uma bunda exposta, as de biquíni não contam. Também não reclama dos privilégios dos irmãos. Sair sem dar satisfação, se livrarem dos afazeres domésticos, namoros com mais liberdades. Acreditava que eram coisas justas por serem homens. Sua ficha caiu quando teve o primeiro namorico, Ricardo, 22 anos, ensino médio completo, matrícula em Direito no Atenas, estágio, Fiat Argo 2016 preto, introspectivo e aparentemente caseiro.


No início tudo correu bem, as fotografias do “nosso dia 4”, mês a mês, as datas de casal, as visitas ainda monitoradas pelo pai, Seu Agenor, como se isso fosse empecilho para Ricardo, que dava sempre um jeito de fugir da proteção paterna do velho. A coisa começou a mudar para Larissa, já nas primeiras semanas de namoro, sem que ela desse conta do efeito que Ricardo causara em sua vida. As amizades se restringiram apenas às mulheres, depois nem isso, Ricardo falava de conspirações delas contra ele. Larissa, para não contrariar as amigas, se afastou aos poucos, saiu dos grupos que mantinha, e sua vida se restringia a Ricardo e mais ninguém, seu único momento de sociabilidade eram os minutos de recreio da Cyro Góes.


Se sentia isolada, mas o que importava era que tinha Ricardo. Era o rapaz que todas as garotas queriam, em público sempre educado e respeitador, jovem e já com uma vida segura. Sempre ia acompanhado de Larissa à missa de domingo, na igreja São José, para serem observados pelos católicos. Com certeza as garotas a invejavam, e como! Por isso passava pano para algumas atitudes violentas de Ricardo, nunca a tocara afinal, apenas uma vez que apertou o seu braço fino com força excessiva, deixando um roxo de dedos, e outra que tentara tomar o celular de sua mão para olhar conversas de rede sociais e a empurrou no chão acidentalmente. Quem ama tem ciúmes, pensava consigo. E logo o perdoava por esses episódios. Ele era doce depois dessas atitudes, a presenteava com uma roupa de que havia falado, levava para tomar açaí, um porção no Beer, tudo voltava ao normal até a próxima briga.


Dava à causa dessas discussões constantes o seu temperamento forte, realmente se sentia uma garota difícil de lidar, e também, sua família, nesses casos, sempre tomavam partido de Ricardo, rapaz tão bom, educado, estudioso. Pontualmente às 21h, na porta da casa de Larissa, noutros tempos não tinham horário fixo, a faculdade, ia e vinha quando queria, sem prazo de chegada. Já transavam com mais frequência, mas agora o prazer era escasso. Chegava a sentir nojo quando Ricardo a penetrava com seu pênis pequeno, mas se repreendia por isso. Por sorte, uma atitude que a incomodava no início, veio para bem, Ricardo não a chupava, nunca soube o porquê, dizia-se incomodado, ainda bem, ainda bem, pensava agora, talvez não suportaria aquela língua áspera correr entre os lábios de sua buceta, sentia asco. Acabou que daí o negócio desandou, Larissa, com seus 17 anos, se compreendia madura o bastante para conduzir a situação. Perdeu os aspectos de menina e se tornou uma mulher sofrida, em um relacionamento de merda, como, em sua concepção, devia ser a sina das mulheres. Sua mãe, suas tias, amigas, todas deviam passar por isso.


Ricardo também se transformou, não ligava mais para Larissa, mantinha o namoro mais por um incômodo de a ver com outro do que qualquer outra coisa. Garota fútil, julgava suas colegas de faculdade mais interessantes. Já sabia os cinco primeiros artigos da Constituição Federal de cor, lia Yuval Harari, Caio Carneiro e Olavo de Carvalho, se apresentava como um liberal-conservador, e desses assuntos não podia conversar com Larissa, havia um abismo entre os dois. Larissa, numa tentativa desesperada, passou a ouvi-lo, perguntar por suas leituras e visão de mundo, a rejeição por parte de Ricardo, rompeu sua repulsa e a fez de novo apaixonada, o admirava incondicionalmente, falava dos feitos de Ricardo sempre que tinha oportunidade. Até leu alguma coisas indicadas por ele, O Milagre da Manhã, A Sutil Arte de Ligar o F*da-Se e O Homem Mais Inteligente da História, leituras de alta qualidade e indispensáveis segundo Ricardo. Na verdade as leituras não a interessavam, lia saltando partes, mas por esforço do que por prazer. Devia se controlar para não parecer mais inteligente que Ricardo, o ego dos advogados, correção, dos estudantes de Direito, era algo muito delicado, pensou até que num futuro próximo o teria de chamar de Doutor.


Larissa caiu em si só quando levou um pé na bunda de Ricardo. Ainda se humilhou um bocado, mesmo que vieram à tona um par de traições, das quais apenas ela não sabia. Se trancou no quarto e chorou por uma semana. Seu estado era deplorável, irreconhecível. Ao redor dos olhos se formavam duas manchas cor de beterraba. Não comia, não bebia, vivia de cama. Até Seu Agenor demonstrou compaixão pela filha, fez seus agrados, a mãe cozinhou as coisas que Larissa gostava, batata frita, pudim, torta-de-frango. Nada adiantava. As amigas voltaram, foram em grupo visitar Larissa. Aos poucos a arrancaram da cama e do quarto. Larissa em seu tempo de isolamento, havia abandonado a si mesma, mergulhada na tristeza, como é a sina das mulheres abandonadas, pensava, em seu momento mais desesperador, lembrou que tinha no fundo de uma das gavetas, junto ao cheiro de barata, um livro. Pegou o livro com as mãos de unhas sem esmalte e leu: A Hora da Estrela, Clarice Lispector, Editora Rocco.

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O TÉRMINO COM RICARDO DUROU APENAS DOIS MESES, já haviam visto-os juntos, numa das mesinhas do lado de fora do Rezende, esperavam pizza, meia Portuguesa, meia Calabresa.

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FIM.


Autor: Gustavo Rubim.



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