FUTEBOL MATA FOME, FOME MATA GENTE

Atualizado: 20 de jan. de 2021



Sábado (12/12), perto das 10h, Hélio Costa, pedreiro e principal idealizador do Natal Sem Fome separa os sacos de cal e as linhas para marcar o campo, aparado a grama no dia anterior. Há menos de 50 metros está o estádio José Anastácio Barbosa, com as pinturas de Leandro Abreu: em uma delas Neymar, craque da seleção brasileira, apoia uma bola na mão; mais a frente, Messi aparece com seu meio-sorriso; um garoto triste apoia os braços cruzados em cima dos joelhos, como se chorasse sentado debaixo de um poste aceso; por fim, JUVENTUDE escrito em uma fonte serifada e palavras em letras pequenas ao redor...amor, paz e outras palavras de que carece a humanidade.


DIA ANTERIOR

[Na sexta-feira (11/12), ao meio-dia, Hélio compareceu à rádio Planalto FM, para conversar com o radialista Lásaro Borges, e convidou a população e atletas, que fossem no dia do evento, assim como o novo prefeito, Oseias Queiroz]. Domingo (13/12) fazia uma tarde de sol forte. Dona Iraci abastecia os espectadores com cerveja e Coca-Cola. Na lateral do campo, abaixo das árvores onde o povo fugia do calor.

O José Anastácio, há tanto em reforma e carente de eventos. Desde dezembro passado, para o mesmo Natal Sem Fome. Ganhou vida com a apresentação do grupo Desbravadores, coordenado por Darlene Darc, da igreja Adventista do Sétimo Dia, apoiadora do evento. Também o louvor de Ivani Damasceno, que cantou Volte a Sonhar, de Elaine Martins.

Hélio, a esse ponto, apresentava as atrações em um microfone ruim e quando não dava no microfone, a voz saia no peito e na raça. Mas claro que o estresse e a organização começaram muito antes daquela tarde de sol. Ao total foram arrecadadas 90 cestas básicas e pouco mais de mil reais que serão usados para complementar as cestas. O restante do dinheiro e doações serão usados para construir o túmulo de Paulo Souza “Lica”.

Os times, Torcedores-Cruzeiro versos Torcedores-Atlético entraram perfilados seguidos dos times 21 de Abril A versos 21 de Abril B. Equipe criada por Lica, no início dos anos 2000, que jogaram em memória do treinador assassinado há um ano. Lica que dedicou uma vida a crianças, adolescentes e homens, que têm uma parte da vida deixada dentro do retângulo verde de grama seca, no fim do bairro Porto.

A bola rolou quando o sol escondeu-se entre as primeiras nuvens, mas neste momento o futebol já não importava, o calor já não importava... a corrente já estava feita e algumas famílias poderiam ter um Natal com algo na mesa para comer, em um momento que a pandemia agravou ainda mais a crise socioeconômica do país e que o pobre custará a sentir o gosto da carne. Para quem via de fora, não era mais que um campo cercado de gente, com cara e cheiro de gente. Um retângulo cercado de tela e homens de meios-pulmões correndo sem jeito atrás de uma bola. E era o que era.

Com um esforço aqui e outro ali, Hélio e seus companheiros conseguiram dar um Natal "feliz" para algumas famílias carentes e um pouco de alegria aos que estavam atrás da pelota amarela dentro do cercado. E têm os corneteiros da tela, que tiveram alguém para xingar por quatro tempos e um motivo para beber um Brahma gelada.

Mas claro, nada nunca é suficiente. E você faz o suficiente? Eu? Não, não!

[NÃO AGRADECEMOS A NINGUÉM, PARA NÃO TER O PESO DO ESQUECIMENTO E POR QUE NENHUMA AÇÃO DEVE SER FEITA E JUSTIFICADA PELA GRATIDÃO. O SER HUMANO POR SI É UM SER INGRATO E VAIDOSO, MAS EXISTEM OS QUE FAZEM E POR QUE FAZEM?].




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