EDUARDO E A CAGADA FILOSÓFICA

Conto por, Gustavo Rubim.

I

Eduardo desejava morrer numa cagada matinal ao som de Novos Baianos. Dos prazeres da vida, esse era o maior. Despertava sempre duas horas antes de sair para o trabalho e caminha ainda sonolento para o banheiro. Sentava-se na privada, com o short abaixado e os cotovelos apoiados à coxa, as mãos seguravam a cabeça pouco firme, mas com o olhar na faixa estreita de azulejos de golfinhos, que dividiam a cerâmica branca da parede do banheiro. Um cômodo tão pequeno que era possível cagar e lavar os pés no chuveiro ou cagar e lavar as mãos na pia. Acima da pia também tinha um espelho coberto sempre por uma toalha, já que Eduardo detestava seu reflexo pela manhã e de se olhar no espelho de modo geral. Ver a repetição de si mesmo o apavorava ou talvez o apavorava acompanhar a sua decadência com o tempo. Nessas viagens pelos azulejos, Eduardo se tornava o próprio Capitão Ahab atrás de sua Baleia Branca, apesar de sua inércia corporal. Não fumava porque não contraiu o hábito de fumar e, além de tudo, detestava cigarros. Na adolescência chegou a agredir um colega de classe que soprou lentamente a fumaça de um cigarro em seu rosto, uma atitude completamente em desacordo com seu comportamento pacífico, quase imbecil.


A outra metade do tempo que lhe sobrava, usava para um banho quente e demorado, onde penetrava ainda mais à fundo nas reflexões desenvolvidas previamente na privada, quando com ânimo se masturbava, depois se sentia deprimido por não controlar seus instintos animais, nada o diferenciava de um cachorro a não ser a capacidade de não poder lamber o próprio cu.


Não comia em casa pela manhã. Vivia em uma casa alugada no bairro Bela Vista, que pela calma das ruas, quase sem crianças, assegurava sua solidão impenetrável. Recebia raras visitas, para a tristeza dos vizinhos que adoravam comentar a vida alheia. De Eduardo não tinham o que falar, então criavam as histórias mais absurdas sobre aquele homem inútil: a de que matara a namorada e vivia ali escondido era a mais atual e debatida pela roda de velhas fofoqueiras de esquina.


Há pouco, conseguira um edital para professor substituto de Língua Portuguesa na escola Pacheco Pimenta, que ficava quase a duas ruas retas de sua casa. Gostava do aspecto sombrio daqueles corredores escuros e o contraste de todo o espaço que sobrava em volta, onde crescia uma vegetação verde de cada lado de um longo passeio, que dava em uma quadra de esportes. Como professor, detestava e amava ao mesmo tempo o que fazia. A certeza era que odiava os alunos, cada um deles de modo especial. Não se importava, pensava que o jovem tinha direito de ser medíocre, ensinava o que continha no livro didático, às vezes, por desencargo de consciência, dizia, “ler Machado de Assis talvez seja importante, ler Lima Barreto talvez seja importante, ler Guimarães Rosa talvez seja importante [...]", depois já nem se esforçava em dizer, acreditava que a ignorância juvenil era matéria impenetrável. Uma exceção era Julinho, um jovem tímido com cara de bolacha, para quem chegou até a emprestar um dos livros de sua biblioteca pessoal, por não haver na Escola, uma edição de Cartas nas Ruas, de Charles Bukowski.


Na verdade, Eduardo também era formado em Direito, mas odiava menos as Letras, fez o curso por influência de amigos, que diziam do bom negócio, mas acabou trabalhando apenas em pequenos escritórios de outros advogados, como uma espécie de secretário. A burocracia dos documentos que manejava o faziam lembrar Kafka e aquele ambiente de homens brancos de terno e gravata não lhe agradava de nenhuma forma. Preferia a sala de aula, sem dúvidas.

II

Sua mãe o repreendia por sua condição miserável, sugeriu a busca de tratamento profissional. Os livros de autoajuda de sua estante, depois de lidos, eram usados para limpar a bunda, a função mais útil que chegavam a oferecer a ele. Tentou terapia, nessas sessões descobriu que os profissionais que o atendiam possuíam mais problemáticas do que ele próprio. Um dia até chegou a consolar Fabíola, que vinha lhe atendendo há algumas semanas, a pobre passava por um fim de relacionamento abusivo.


Fabíola era bonita, ainda que estranha, tinha os olhos quase verdes e cabelo castanho, corpo branco e esguio, mas o que agradava mesmo Eduardo era a estranheza de Fabíola.


No início, o incomodava a mania de autocontrole de Fabíola, hábito comum dos psicólogos, Eduardo não confrontava, aceitava passivamente as ilusões da moça, ele também possuía as suas e ninguém as desmentia.


Também passou a se preocupar pelo fato de Fabíola, aos poucos, romper com seu estado solitário. Passou a ficar dependente e ansioso, ainda que resistisse contra isso. Em alguns dias, até chegou a ir trabalhar com disposição.


Enfim, meio que oficializaram um namoro, mesmo que ainda não tivessem transado, o único contato que tinham eram as longas caminhadas na praça Cívica. Até que um dia convidou Fabíola para ir a sua casa, e caminharam a pé dali mesmo. Fabíola não tinha frescuras e Eduardo apreciava os diálogos filosóficos que tinham naqueles fins de tardes, observando o trânsito dos caminhões na BR.


Quando viram a moça branca, acompanhada de Eduardo, dobrar a esquina, houve um silêncio penetrante na rua. A língua de algumas velhas chegaram a entrar em estado de dormência, ao ver Eduardo girar a chave do portão e arrastar Fabíola pela manga da camisa para dentro.


Por seus hábitos de psicologia, Fabíola era um ser que mais ouvia que falava, desse modo não opôs resistência quando Eduardo a beijou calorosamente ainda na cozinha, mesmo que em um namoro, aquele tipo de afeto era estranho para os costumes do casal. Fabíola se comportava como uma boneca e isso excitava Eduardo ainda mais. Encontrou resistência ao arrancar o jeans da moça atirada ao sofá. Ela mesma se encarregou de arrancar a parte de cima, o que evitou o constrangimento do sutiã, que o preocupou em toda caminhada até a casa.


Mordeu a ponta daqueles mamilos avermelhados, como quem corte a patinha de uma Tortuguita, escorregando a língua até o outro na outra extremidade.


A calcinha tinha uma renda na parte frontal. A tirou com delicadeza. Nada de pêlos. Com a língua sentiu a aspereza da região entre a buceta e o umbigo, que lhe causava prazer. Pelo nível, cortara um dia antes ou naquele mesmo dia.


A chupou como quem chupa a primeira manga-comum que cai. Fabíola deixava seus modos reservados e se contorcia no sofá. Até que pediu para ser penetrada lentamente, Eduardo obedeceu. Estava em uma posição incômoda, meio de joelhos no tapete e com a outra perna no sofá. Afastou uma das pernas de Fabíola e a penetrou. Fabíola gemia enquanto beijava Eduardo, com uma das mãos, quase arrancava os cabelos do pobre.


Depois de um rápido cochilo, Eduardo e Fabíola decidiram tomar um banho. Eduardo entrou para o chuveiro, mediu com o pé a temperatura da água, estava quente, entrou. Olhou Fabíola, que se sentou na privada e perguntou, com sua voz suave: se importa se eu cagar?. Os olhos de Eduardo brilharam.


FIM.


Autor: Gustavo Rubim.


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