A SANTA




Podem não ter credo às palavras de um bêbado, ainda mais as de um bebum qualquer como o sou, daqueles que bebem não para fugirem a uma tristeza permanente, que somente encontra fuga por vias alcoólicas, mas, bebo, apenas para ignorar a realidade qual fui introduzido contragosto. No entanto, juro, pelo resto de pinga que preservo no fundo da garrafa, desde quando aboli o uso do copo-americano, que este causo que presenciei, ainda em meus tempos de lucidez [nem tanto], quando a gente dessa cidade que me pariu, ainda olhava para mim como um ser humano, é, em cada palavra, fruto da realidade.

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Trabalhei naquele tempo, sem data exata, ainda quando se formavam os primeiros conglomerados à beira do Paracatu, naquela época farto de peixes, e se iniciava os pilares da Ponte, que traria à Brasilândia, os rastros da civilização, para uma senhorinha de modos imperiais, que contrastavam com a miséria do povo. Dona Joaquina de Pompeu, esposa de Capitão Inácio, dono dessas terras até o limite da serra Extrema [e depois talvez], onde mandou construir a igreja, atrás da Casa Grande, em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes, de quem era devoto. Dali em diante, passou-se a rezar o terço rigorosamente todas as noites, em companhia da senhoria e do padre Miguelim. Eu, que nunca dei para crer em coisas Divinas, fruto da desgraça que presenciei diariamente até essa parte da vida, me furtava a ideia de que rezar uma oração repetida vezes poderia trazer-me algo diferente de que me reservava a perversidade do amanhã e dos Homens.

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Assim, naquela noite chuvosa, que enchia as canoas dos pescadores, a água se confundia se as afundava pelo alto ou pelos buracos que se formavam no fundo da canoa. Estava eu no buteco de Zé Preto, enquanto o povo orava na Capela, para amansar a chuva, que descia como o dilúvio, como a aguardente em minha garganta. Temendo o pior, conta-se os presentes, a senhorinha resolveu levar para Casa Grande a Santa, coberta por um manto azul, as mãos em posição de oração e um choroso olhar para o céu. Foi nesse momento que decidi abandonar a cadeira do bar, movido por uma força sobrenatural, digo sobrenatural não por se tratar de uma força externa que movesse meus passos trôpegos, mas por não saber como as movia com certa linearidade, da qual aproveitei-me para chutar alguma pedrinhas, ruma às poças que se formavam no caminho barrento de minha casa.

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Foi quando me dei conta, de que as pedras surgiam cada vez maiores, e que não se arrastavam por meus chutes avulsos, que maltratavam mais o vento do que qualquer outra coisa, mas por outra natureza, ainda mais desconhecida. De súbito, com o que me restava de lucidez, identifiquei que não eram pedras comuns, mas sim as pedras da Capela, que rolavam na direção da Casa Grande. Por sorte, Adélia, negra-velha que ainda resistia a escravidão e ao peso de seus dias, travestida de sua sabedoria ancestral, da qual os brancos não foram capazes de lhe roubar, por estarem impregnadas na alma, pode contar a Dona Joaquina, da lenda que trazia aquela santa, que corria naquele tempo entre os negros da reda do Porto. Essa lenda, que é fruto de uma outra história, história com agá, porque da boca dessa gente, não se atrevia a pôr a dúvida em questão, até para seres incrédulos com eu, que hoje, nem se quer sou reconhecido pelas ruas da Brasilândia que não é a mesma, mesmo conservando parte de seu conservadorismo provincial, fruto de uma fé apartada do amor. Dessa ou daquela Brasilândia, a única coisa que há cambiado em minha vida é que dantes dormia na terra e hoje durmo no asfalta, de que se gabam o eleitorado à porta dos butecos, de que esse privilégio tenho somente graças ao PROGRESSO.

Autor: Gustavo Rubim

 

LENDA ORIGINAL Diz a lenda que tinha uma pequena capela ao pé da serra de Brasilândia de Minas, atrás da casa Grande, onde era venerada uma santa, e toda noite era rezado o terço. Em um dia chuvoso a rica senhora ( Joaquina de Pompeu ), resolve levar a santa para dentro da casa grande.

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. Ao chegar dentro de casa foi ouvido um grande estrondo , correrão para ver oque ocorreu, um monte de pedra tinha decido, e tinha certeza que as pedras tinham seguido a santa, a rica senhora assobrada devolveu a santa a sua capela.

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. O fato tão comentado, Que a fé construiu esta igreja para aquela santa, NOSSA SENHORA DE LOURDES.


Autora: Maria Morais

Fonte: Brasilândia: meu pé de serra/

http://debateembrasilandia.blogspot.com/2012/02/lenda-de-brasilandia-de-minas.html


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